«Quem és tu?» É talvez a pergunta mais inquietante que nos pode ser feita… Dependendo do contexto, e da pessoa que nos interroga, vamos tentando definir-nos a nós próprios: o nome, as raízes familiares, o trabalho ou o lugar que ocupamos… Mas… quem somos nós de facto?
João Baptista, no texto do Evangelho de São João que hoje nos era oferecido neste Domingo que contém um especial convite à alegria cristã, é também confrontado com essa pergunta. A resposta é dada por uma série de negações (e verdade seja dita, sabermos o que não somos é já é uma resposta…) para se definir como uma «voz», que é expressão da Palavra (Jesus) e aponta para ela: «Eu baptizo em água, mas no meio de vós está Alguém que não conheceis: Aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias».
O desafio à alegria cristã, penso que está precisamente aqui: saber quem somos na relação com Deus, e de Deus connosco. Não temos de ocupar o lugar d’Ele, nem de nos confundirmos com Deus. Não deixarmos de ocupar o nosso lugar de criaturas, que apontam para o Criador. Como João. O importante não é fixarmo-nos em nós próprios, mas sabermos da relação que nos constitui naquilo que somos. A alegria está precisamente na capacidade de irmos para além de nós próprios, de nos auto-transcendermos, de entrarmos numa relação que nos faz perceber o sentido de nós próprios e da nossa vida!
«Quem és tu?»… E dar uma resposta que se faz vida numa «voz» que aponta para a «Palavra» que se fez carne… e tornar actual (porque acontece no aqui e agora da vida de cada um) o mistério da Incarnação. Talvez por isso (ou não…) se diga que «o Natal é sempre que o homem quer!»

Leonardo Da Vince, São João Baptista
Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João. Veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz. Foi este o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram, de Jerusalém, sacerdotes e levitas, para lhe perguntarem:
«Quem és tu?» Ele confessou a verdade e não negou; ele confessou:
«Eu não sou o Messias».
Eles perguntaram-lhe: «Então, quem és tu? És Elias?»
«Não sou», respondeu ele.
«És o Profeta?».
Ele respondeu: «Não».
Disseram-lhe então: «Quem és tu? Para podermos dar uma resposta àqueles que nos enviaram, que dizes de ti mesmo?»
Ele declarou: «Eu sou a voz do que clama no deserto: ‘Endireitai o caminho do Senhor’, como disse o profeta Isaías».
Entre os enviados havia fariseus que lhe perguntaram:
«Então, porque baptizas, se não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta?»
João respondeu-lhes: «Eu baptizo em água, mas no meio de vós está Alguém que não conheceis: Aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias».
Tudo isto se passou em Betânia, além Jordão, onde João estava a baptizar.
(Jo 1,6-8.19-28)